Escapadelas e experiências · Uncategorized

Numa aldeia

 

O feriado estrategicamente colocado à quarta-feira permitiu um fim-de-semana bem alargado.

Naquele Sábado de manhã, depois de atestarmos o carro com a trouxa para os dias vindouros, rumámos a Norte.

Destino certo e Itinerário não tanto, dando espaço a algum improviso, regalos de vontades e de meras curiosidades…

Primeira paragem: uma aldeia perdida na Beira Baixa.

(E neste post ficaremos por esta, certa de que as próximas merecerão um só delas).

 

Acontece que, já perto do destino, almoçávamos onde a intuição nos dirigira e a sabedoria autóctone indicou (ou ordenou!): “ A menina vai almoçar ali!!”

O tom imperativo continua, já sentados à mesa de um lugar familiar (pai ao balcão, mãe na cozinha e filho nas mesas). É a este que dirijo o pedido. “Menina, desculpe mas não! Vou trazer-lhe uma de javali e não se fala mais nisso!”.

Bem, quem me conhece sabe que “javali” não entraria nunca no pódio das minhas opções…Mas vamos lá!…

A meio da refeição (e já completamente rendida à especialidade) olho de soslaio para a televisão que faz manchete da efeméride: Dia Internacional do Idoso.

 

Barrigas regaladas, o caminho já parece outro. As curvas e contracurvas passam quase despercebidas com o cheiro a ervas e flores (que a ignorância cosmopolita impede de nomear condignamente). Pouco importa. Sabemos que o cheiro é bom e anuncia a chegada.

Vem-me à memória a canção do Rui Veloso que trauteio:

(…) Tília trevo e açafrão

Erva pura pimentão

Louro salsa e cidreira

Urze brava e dormideira (…)

 

Lá se viram as cabeças dos habitantes desta aldeia perdida perante a chegada de alguém que não é dali!..

São eles, de quem há pouco se falava no jornal da tarde… Não encaixam, porém, na descrição do pivot… Sim, andam encurvados e sim, têm cabelo branco, mas “idoso” ou, como é de bem dizer agora, “pessoas idosas” não lhes serve…

Ali, “os mais velhos” (prefiro este termo) são sábios, conhecedores da terra e do que ela nos dá… Conhecem (e respeitam!) a natureza como ninguém, sabem de cor as flores e as ervas, distinguem o som dos bichos e conhecem-lhes o propósito!…

Plantam, semeiam, colhem… Cozinham eles o alimento que viram crescer (quiçá parte do motivo da sua jovialidade).

São donos das suas casas, das suas terras, dos seus animais.

São donos das suas horas, das suas rotinas.

Alvoram antes do sol e deitam-se com ele…

Fazem as suas orações ou, como dizem, “os responsos” aos seus santos…

Exibem uma cultura impressionante, ainda que a maior parte não tenha a quarta classe…

 

“(…)Quero contigo aprender

Cheiros ervas e flores (…)”

 

Olham-nos nos olhos, com olhar límpido, quase transparente…

Quando nos falam têm de olhar para cima mas falam-nos do alto da sua grandeza!…

O sábio dedo apontado acompanha os ensinamentos e/ou conselhos dirigidos…

E as mãos… Enrugadas, pequenas mas onde o mundo cabe todo…

Mãos que, à despedida, abraçam o meu ventre para abençoar a vida que lá se gera… “Que venha por bem!”

 

À despedida, o primo Zé já separou um frasco de mel das suas abelhas e a prima Rosa tem já ali embrulhados uns ovos das suas galinhas.

 

E arrancamos… de barriga cheia!

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