Relações humanas

Dia Mundial dos Cuidados paliativos

 

Quando, há uns anos, me propuseram que iniciasse a minha prática profissional com os mais velhos, tremi!

Psicóloga clínica recém-licenciada, saía da faculdade com o lirismo de que, a partir dali, era então sentar-me confortavelmente na poltrona de um consultório bem quentinho…

Abracei o desafio com apreensão e receio.

Lidar de perto com os mais velhos em contexto institucional significava alguma coisa bem distante deste glamour… Significava lidar de perto com a solidão, com a dependência, com a morte.

No limite, a proximidade diária com os mais velhos confronta-nos com a ideia da nossa própria morte.

Vem-me à ideia o refrão de uma música da Mafalda Veiga: “(…) sabes eu acho que todos fogem de ti para não ver a imagem da solidão que irão viver quando forem como tu, um velho sentado num jardim (…)”

Numa preparação prévia para este trabalho li um livro escrito por uma psicóloga numa unidade de cuidados paliativos: “Diálogo com a morte”, de Marie de Hennezel.

A mesma alerta para o facto de projetarmos a dificuldade de lidarmos com a ideia da nossa própria morte (dificuldade que é só nossa) na relação com o que vai (e sabe!) que vai morrer.

O resultado é sermos incapazes de abordar este tema. A morte é um não-assunto. E perante a tentativa daquele que sabe que vai morrer de falar sobre o assunto, defendemo-nos: “Vai agora morrer, não diga isso” e rapidamente se muda o tema para o estado do tempo ou para o que se comeu ao almoço.

Marie dizia que a pior solidão de um moribundo é a de não poder anunciar aos seus próximos que vai morrer.

Compara ainda a morte a um barco que se afasta no horizonte. “Há um momento em que desaparece, mas não é por não o vermos que ele deixa de existir”.

Confesso que fico com os nervos em franja quando, na comunicação social, oiço anunciar a morte de alguém com o seu desaparecimento: “Desapareceu Nicolau Breyner”! Desapareceu???

Talvez valha a pena parar (porque aqui não é morrer…) e pensar…

É que, muitas vezes, “os que vão morrer ensinam-nos a viver”.

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