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Pari às 28 semanas

Esta sou eu, grávida de gémeos de 26 semanas.

Estava longe de imaginar, mas os gémeos nasceriam apenas uns dias depois.

Sim, pari (“parir” é um termo médico, que não choque os mais sensíveis) às 28 semanas. (Para quem não fala “gravidez” ainda não tinha 7 meses).

Hesitei muito antes de escrever este post. Uma das razões pelas quais decidi fazê-lo foi por diversas vezes, em contexto da minha prática clínica, me ter confrontado com a problemática da prematuridade e o profundo impacto (físico e psicológico) que tem nas mães, nos bebés e em toda a dinâmica familiar.

Achei então que a melhor forma de conseguir ajudar quem a vivencia seria falar, não em termos técnicos, mas na primeira pessoa.

Primeira segunda-feira do ano. Dia que, por si, adivinhava começos…

3 da manhã e, como tantas outras madrugadas, atendia à minha bexiga de grávida protestante transportadora de duas placentas.

Naquela madrugada, porém, não cheguei ao destino…

_“R, acho que temos de ir ao hospital. Molhei o chão todo”.

Levanta-se num sobressalto e num ápice está à porta de casa, tentando manter a calma perante a minha postura “autista” de quem vive (vejo agora) um processo de negação profundo.

_ “Deixa-me só ir buscar um iogurte ao frigorifico porque já se sabe como são os hospitais”!!!!…., disse-lhe.

E era isso que levava. Sim, um iogurte, porque ia certamente esperar e voltar para casa umas horas depois, onde poderia tomar um pequeno-almoço digno desse nome.

Que mais leva uma grávida a uma visita ao hospital às 28 semanas de gestação? A mala da maternidade? Grávida nenhuma tem uma mala de maternidade pronta a transportar às 28 semanas.

Só desde há umas semanas para cá os sentia mexer, só agora me permitira fantasiar o quarto em tons de azul, só agora começara a exibir orgulhosamente a minha barriga de “grávida de gémeos”

Portanto, sim. Levava um iogurte na mala porque ia voltar para casa “não tardava nada”.

Lembro-me que, no caminho, enquanto ensopava o assento em pele do carro familiar recentementemente adquirido para o que aí vinha, disse sem encarar o R: “Se isto estivesse a acontecer daqui a dois meses, eu diria que os gémeos iam nascer…”

O R mantém o silêncio e os olhos fixos na estrada. Olhos de quem não vê, olhos que o pânico ofuscava. E as mãos no volante… Mas agora mãos de quem procura agarrar o que lhe está a fugir… O tempo, o a esperança, os sonhos…

Chegada às urgencias. Perante o quadro, a enfermeira “bipa” a médica de serviço com urgência. Chega a dita com as marcas da almofada na cara que, dura e cruamente, declara: “Está a entrar em trabalho de parto. Teremos de ver se pode ficar aqui internada ou transferida para outro hospital, pois estamos à espera de uma gravida de trigémeos também pronta a parir a qualquer momento”. (parecia um cenário kafkiano…)

A partir deste momento, é como se estivessemos debaixo de água. As palavras que nos dizem são ecos difusos e soluçados que não conseguimos processar.

Oiço, lá fora, a enfermeira dirigir-se ao R: “Tenha calma, a sua mulher está a entrar em trabalho de parto. Está a perceber o que lhe estou a dizer?”

Claro que não estava a perceber. Também ela falava como se estivesse debaixo de água e a realidade confundia-se com as evidências. Lembro-me do olhar apavorado do R que, da porta, fixava a minha barriga que, com a perda de líquido, tinha praticamente desaparecido… A sua cabeça formatada de engenheiro fazia contas rebuscadas e nenhuma respondia à questão: “Como era possível sairem dali dois bebés?”

Sempre havia espaço para esta grávida neste hospital.

Já no quarto, virava a cara à porta. Focava-me na janela. Recordo que, apesar das horas já tardias, o dia não nascera. Um nevoeiro cerrado acompanhava o sonho serrado.

O nevoeiro acompanhou os três longos dias seguintes. Via-o a através dos estores semi abertos da janela, via-o nos olhos do R… Procurava abertas nos olhos das várias esquipas de turno que se revezavam em entradas no quarto e, pedindo licença, “entravam às apalpadelas, na ainda casa dos bebés” (recorrendo ao eufemismo…), comunicando aos colegas por código o que o sentido do tacto lhes dizia…

´”É um pé!”, disse, sem “mediguês” e em bom português, e, a seguir o veredito: “Vamos? Esses meninos têm que nascer hoje!…”

“O pai não vai poder entrar”, disse uma das batas brancas!…

“O pai”… Já o era?!… Ia, de facto, sê-lo?

Esta mãe… Não o era… Não era digna desse nome. Era apenas uma mulher apavorada com o que viria, perguntando-se o que teria feito para causar aquilo. Sim, porque é isso que se sente! O que se passa dentro de nós para os nossos bebés quererem abandonar tão depressa?!…

Lembro-me de, no gelo do bloco, fixar as luzes no teto e apenas… esperar.

A anestesia tinha-me adormecido também o pensamento.

“Um já cá está!, oiço. 1 kg!! Nada mau!”

Aquele cenário sonhado, visualizado e fantasiado vezes sem conta de, mal nasça, o bebé vem repousar no peito de uma mãe, que do suor faz lágrimas de alegria… não existe aqui!!…

“Porque é que eu não oiço chorar?? Não devia estar a ouvir chorar???” Lembro-me de perguntar, aterrorizada.

Uma voz tranquiliza-me. Dois minutos depois do Artur nasceu o Duarte. “Cá está o mano!”, Desta vez, chegaram-no a mim: “Quer dar-lhe um beijo, mãe?” Aproximaram-mo de mim, para o levar logo a seguir. Foi fugaz. E eu que queria tanto… só sentir…

Não é o que é suposto? Sentir alguma coisa ali, naquele que seria o momento mais marcante das nossas vidas?…

Acordo no quarto, um quarto só para mim, o que, num hospital público, é um luxo impagável. Não fora sorte, claro está. A equipa médica teve a sensibilidade de não juntar esta mãe a outras que tinham os seus bebés consigo….

Acordo com o rosto do R debruçado sobre mim. Não foi preciso perguntar-lhe nada. O seu olhar estava de volta e falou.

_ “São lindos!!!”

Era o olhar de um pai que vira o sonho quase desmoronar…

Um bebé nascido às 28 semanas não é bonito!

_ “Anda, vem vê-los!”

Não queria! Sim, esta é a verdade! Não queria vê-los, não estava preparada para o que pudesse encontrar e tinha medo.

Desculpando-me nas dores de pós-cesariana para adiar o momento, subi para a cadeira de rodas.

_ “Vamos!”

E fomos! Elevador, piso 8, cuidados intensivos neonatais, onde passaríamos os 80 dias seguintes.

 

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