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Piso 8. Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais

Piso 8. Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN). Assim que se abre, aquela porta transporta-nos para outra dimensão. Não é um espaço de livre acesso. Há uma porta permanente fechada, que alguém do outro lado abre apenas quando, através de uma câmara, reconhece quem toca. Na parede, imagens e mensagens de esperança para quem vai atravessá-la. Fotografias de “antes e depois” de bebés lutadores e vencedores.

A porta abre-se e estamos na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais.

Quem já aqui esteve não mais esquece.

Ainda sinto o cheiro, ainda oiço o barulho das máquinas, ainda vejo as linhas azuis e gráficos indecifráveis nos ecrãs…

Apenas é permitida a presença dos pais. Também ela uma presença, não apenas totalmente esterilizada (obrigatório uso de avental descartável e desinfetante corporal), mas também estéril, porque é assim que os pais sentem, no início, a sua presença… Em vão, inútil, meramente figurante…

Uma sala farta de incubadoras. Caixas de vidro e pais à volta das ditas com olhos (também eles) feitos de vidro.

Ao fundo, as incubadoras com os “nossos” (entre muitas aspas, porque ali então são tudo menos nossos) recém-chegados. Em cima, uma placa com os nomes.

Aproximo-me, a medo.

Quem acredita na vinculação imediata mãe/bebé, amor incondicional à primeira vista, não tem em conta a realidade da prematuridade. Não é possível vincularmo-nos a um não-corpo, a um não-olhar.

Não lhes sentimos o cheiro, não lhes sentimos a pele, a respiração compassada… Tampouco são donos dela, controlada artificialmente…

Dizem-nos que aquele é o nosso bebé e nós acreditamos (… Eu diria que “assentimos”…)  porque tem uma placa com o nome por cima da incubadora… E, aquele foi, de facto, o nome que escolhemos. Não lhes vemos o rosto, coberto por toda a espécie de aparelhos, tubos, fios e mais fios…  E aquelas máquinas, que cada vez que emitem um sinal sonoro, entramos em sobressalto. Mais tarde, aprenderemos a decifrá-los.

Um silêncio ensurdecedor contrasta com estes decibéis e com o movimento desenfreado de enfermeiros, médicos, auxiliares….

É permitido falar sim, mas em tom monocórdico, e apenas com as figuras de referência atribuídas às incubadoras X e Y.

Aproximarmo-nos de outras incubadoras ou, dentro da sala, falar com outros pais é absolutamente proibido.

Fátima, esse nome sagrado, era o nome da “enfermeira dona” (gíria local) dos nossos bebés.

Olhar doce, voz serena e mãos de fada.

_ “Estou a tratar do Artur”, diz-nos. Mexe e remexe em fios, tubos, sondas, por dentro da incubadora, através de uma porta que abre e fecha onde cabe apenas uma mão. Explica-nos o que está a fazer, para o que serve o quê mas, mais uma vez, as vozes continuam a ecoar dentro de água. Inconscientemente, a metáfora que escolhi é certeira… Era onde, afinal de contas, eles ainda deveriam estar…

Chegava por hoje.

Queria voltar para o quarto, sozinha, e tentar descansar.

Esperava-me no quarto uma enfermeira: “ A mãe vai querer amamentar?”

_ “Que pergunta?!… Pensei… Sim, quero amamentar os meus filhos!!!” (Com todo o respeito às mães que optam por não o fazer, não era uma hipótese que considerasse).

_ “É que sabe que o corpo da mulher não está preparado para a produção de leite às 28 semanas de gestação. Portanto, vai ter de estimular com esta bomba de 3h em 3h até começar a sair”!… De qualquer maneira, os bebés ainda não poderiam ainda ir à mama”.

Dito! Duro e cru!

A parturiente, que não se endireita ainda da cesariana, põe o despertador de 3h em 3h para se ligar a uma bomba de tirar leite elétrica e autoinfligir-se mais dores. As físicas e as outras provocadas pelo som do choro dos outros bebés ao lado das suas mães, noite fora.

Lá fora, o dia clareava. Cá dentro, o nevoeiro persistia…

Entra uma enfermeira com uma cadeira de rodas no quarto pronta a levar-me “lá acima”, se quisesse. Leva a cadeira de volta.

Entra o R pelo quarto.

_ “Já foste vê-los?”

_ “Não, não consegui”.

Esboça um meio sorriso e diz-me, sem mo dizer, “leva o tempo que precisares!…”

_ “Vamos os dois?”

E fomos.

Empurrava-me a cadeira com passo acelerado.

Tinha, de facto, pressa de chegar.

Lá estava a Fátima, de nome sagrado, desta vez com o Duarte.

_ “Estava mesmo agora a terminar. Quer tocar nele?”

 “Tocar nele” significava por a mão dentro da tal janelinha circular e apenas pousar a mão na manta que o cobria…

“Eles não gostam de festinhas”…., dizia….

Um dia de cada vez, é o lema da UCIN. Não se antecipam respostas, não se antecipam cenários, não se fazem suposições.

Responde-se às perguntas dos pais ansiosos da maneira mais objetiva, científica e “assentimental” possível.

De volta ao quarto.

No dia seguinte teria alta.

Saía da maternidade… De mãos livres…

 

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