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Dos Cuidados Intensivos Neonatais para os intermédios

(este post vem no seguimento deste Piso 8. Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais e deste Pari às 28 semanas)

Síndrome do ninho vazio”, é assim designado o quadro vivenciado pelos pais quando os filhos saem de casa…

E quando os pais, acabados de o ser, regressam a casa sem os filhos, acabados de nascer? Nem nome há para isso!… E não será por acaso.

Cedo me habituei a nova rotina. Todas as manhãs, fazia o mesmo caminho rumando ao mesmo destino. Já tinha lugar cativo reservado por um arrumador nas imediações do hospital.

Depressa absorvi as rotinas e dinâmicas próprias da UCIN.

A saber: A mãe chega, põe a moeda no cacifo para os pertences pessoais. Segue depois para o frigorifico para deixar o(s) saco(s) de leite extraído durante a noite com a identificação do (s) bebé (s).

Equipa-se, desinfeta-se e dirige-se à (no meu caso “às”) incubadoras esperando que médico e/ou enfermeira lhes diga o que quer que seja… Depois de um par de horas junto às caixas de vidro, chega a hora de tirar leite (a mãe é encorajada a tirar leite de 3h em 3h, hora a que o bebé é alimentado). (Parenteses: refiro-me sempre à “mãe” porque é isso que ali somos. Não temos nome. Somos a mãe do bebé x e/ou do bebe y). Vai então a mãe para uma sala onde estão umas quantas máquinas de extração de leite, com uns, tão simpáticos quanto possível, sofás para a missão. A candidata à função chega à sala, senta-se e antes do trabalho, puxa um biombo (se quiser alguma privacidade para a missão), única fronteira com a porta permanentemente aberta para o corredor.

Tenho para mim que o humor é um mecanismo de defesa poderosíssimo… Eu chamava-lhe “a sala da ordenha”.

E era, de facto, nesta “sala da ordenha” que as mães (ou aí já a “Joana” ou a “Francisca”) falavam. Convenhamos, que, com os sofás frente a frente, era muito mais confortável arranjar conversa do que ver a outra a espremer-se e a avaliar o produto extraído, comparando com o seu…

Conveniências à parte, estas mães anseiam por partilha… Facto, é que, nesta sala, também se ESPREMEM as angústias…

Cerca de um mês depois, já conseguia distinguir as mães pelos pés que o biombo deixava descobrir, calçados conforme a estação que os mais de 80 dias na unidade permitiram ver mudar.

E nesta sala fiz amizades.

Dia para dia, os gémeos evoluíam. Aprenderamos já, todavia, que estas evoluções eram profundamente efémeras e potencialmente regressivas. Um dia de cada vez, sempre!

Uma coisa é certa, aqueles seres aparentemente tão frágeis e vulneráveis lutam pela vida com uma força heroica e já nos dão uma lição de vida!

Lenta, muito lentamente começaram a dispensar tubos e adesivos e conseguíamos até já perceber alguns traços e feições.

A passagem dos cuidados intensivos para os intermédios foi, posso dizer, amplamente ambivalente.

Se, por um lado, esta mudança era representativa de melhoria, trazia também consigo mais responsabilidade e proatividade por parte dos pais, até então meros espectadores dos cuidados. Muito se fala do instinto maternal e que a mãe, sem ser ensinada sabe, por instinto, como deve tratar o seu bebé. Numa UCIN, não se trata de instintos, trata-se de ciência e pragmatismo. Tudo tem uma técnica: o pegar, o vestir, o dar banho… É compreensível que assim seja, mas deixa a mãe numa posição de (já nem digo vulnerabilidade, porque, por esta altura, já está imune) mas, metaforicamente é como se passasse a ser a aluna sujeita a avaliação das professoras numa matéria que já deveria, por natureza, saber de cor. Ora, os dias ímpares do mês eram os dias do banho. O banho numa UCIN é dado numa saladeira (literalmente) e todo o processo, desde: tirar o bebé da incubadora, desligar os aparelhos que devem ser desligados, manter ligados os que devem ser mantido ligados, pegar no bebé, segurar corretamente o bebé, lavar o bebé, vestir o bebé tornam-se verbos estudados, suados e (sentimos) sujeitos a nota… Não há espontaneidade alguma ou beleza fantasiada naquele processo… Apenas vislumbramos o momento em que estaremos na nossa cosa, a tomarmos o nosso banho com patinhos de borracha…

E todas as manhãs à chegada, ter de pedir autorização à enfermeira para tocar no nosso bebé!…

Não devia ser permitido pedirmos a alguém autorização para pegar no nosso bebé!…

O outro lado, quando finalmente os temos ao colo. Os bebés, nesta fase, precisam muito de contenção, e é muito encorajado o contacto corpo-a-corpo com os pais. Em termos técnicos, é chamada a “posição canguru”. Isto é, colocarmo-nos numa posição de pele com pele (sem barreira de roupas) numa troca de cheiros e calor. Este método canguru, como tipo de assistência neonatal, estimula o desenvolvimento global do bebé. Em termos psicológicos, é o principal motor para a vinculação mãe/bebé. Aumenta a produção de hormonas e consequentemente a produção do leite materno.

Neste momento, sim, o contexto torna-se paisagem, o som das máquinas desaparece e a música  é aquela respiração compassada que abraçamos. E agora, finalmente, posso segredar-lhes ao ouvido: “Meu bebé!… Meu filho!”

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