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Filhos únicos

Sempre tiveram a tendência de falar neles na terceira pessoa do singular e autodenominar-se com o nome próprio, um pouco à jeito de jogador da bola em conferência de imprensa, com a diferença que, no caso deles, os decibéis dispensam microfones e a dicção legenda.
Os nomes próprios são Artur e Duarte, mas há dias que Caim e Abel podiam ser os próprios nomes. Trocam insultos, mutuam injúrias e entrecruzam afrontas numa adjetivação tão combativa que quase se torna música para os ouvidos dos apreciadores de um bom léxico gramatical e de uma semântica farta. 
Ultimamente, trocaram a terceira pessoa pela primeira pessoa do plural e converteram-se ao engenho de falar por ambos: “Nós queremos isto; nós não queremos aquilo”.
A verdade é que, mesmo havendo um tremendo desentendimento entre as suas singularidades, no que toca ao “querer” o entendimento é mútuo e quase permanente. E não fosse o continuada e repetidamente cobiçarem a “coisa” do outro, a “coisa” até se levava.
E se  no toca ao “gostar” é um esforço hercúleo conciliar os predicados (mexidos para um, estrelados para outro; almofada para um, peluche para outro, à sombra para um, ao sol para outro…), a verdade é que procuram a mão alheia quando passeiam e chamam o nome do outro assim que acordam. 
Desconfio que já a sabem toda e suspeito que  essa toda sou eu. 
E tenho para mim que toda eu continuará a ver-vos na vossa individualidade e a mimar-vos como filhos únicos que (não) são.

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