pais e filhos · Pensamentos soltos · Psicologias

Tenho tido insónias

Tenho tido insónias. Não me custa a adormecer, mas acordo vespertinamente quase todas as madrugadas.
A verdade é que o meu sono nunca mais foi o mesmo desde que os gémeos nasceram. 
Mesmo quando as crias dormem um sono para lá do justo, há, irremediavelmente, um sono AC e um sono DC (antes e depois das crianças) e permito-me a terminologia porque o sono é, de facto, sagrado. E, à semelhança de outros aspetos das nossas vidas, só tomamos disto consciência depois de sentirmos na pele (e em todos os órgãos) os efeitos da sua privação.
Sempre ouvi falar na metamorfose do sono depois da maternidade. É como se as mães, depois de o serem, ganhassem um chip interno de hiper-vigilância que as deixa num estado de aparente letargia e quase confusão entre sono e vigília. E este chip é também diferenciador de ruídos. Como se explica que as mães consigam “ferrar” com a mais potente das trovoadas, mas acordar em sobressalto ao mais leve suspiro das crias?! Eles não faziam qualquer som.
Como em tantas outras madrugadas, rasguei as insónias com os cotovelos pousados sob a pedra fria do parapeito da janela. E lembrando os tempos em que o cigarro era companhia, soprei o hálito quente contra o vidro.
O vidro devolve-me desenhos feitos por dedos XS e marcas de mãos onde agora sobreponho as minhas.
Volto a deitar-me. 
A verdade é que, muitas vezes, a noite nos traz o discernimento que procuramos para os dias.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s