casal · Relações humanas

Divórcios pós-ferias

Tenho, ao longo da minha prática clínica, confirmado a tendência apontada pela investigação de um aumento expressivo do número de divórcios no período pós-férias. 
Todos os anos, na rentrée, vejo pais requerentes de férias das férias, ávidos, de forma mais ou menos camuflada, do regresso ao “retiro” laboral e, com mais ou menos culpa, da abertura do portão da escola.
A doutrina da sabedoria popular diz: “Cria tudo, menos expectativas”.
Mas as férias vestem-se de expectativa. A expectativa de recomeço, a expectativa de vagar, a expectativa de ter tempo para ter tempo.
E a expectativa leva uma coça da realidade quando ela traz areia em todos os poros.
Por muito que se insista na designação “divórcio pós-férias”, tenho para mim que as férias não são, por si, o causador das separações. Elas apenas põem a descoberto uma ferida tapada pelas mangas da justificada falta de tempo, pela gola alta das escolas, pelas bainhas compridas das horas extraordinárias no emprego, encarapuçada pela rotina exigente dos dias que maquilha uma pseudo-estabilidade.   
E por muito que queiramos fazer esfoliação de areia para arrancar as células mortas, salgar a crosta e bronzear as almas, o peso do “agora é que vai ser” é demasiado pesado para carregar às costas.
Não punhamos as férias no banco dos réus das separações quando os olhos já não encontram poiso.

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